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Lençol rasgado

João Varella - 18:41 - 6/01/2015
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    É conhecida a figura do lençol curto para explicar a escassez de recurso. Quando é usado para cobrir uma parte, deixa outra descoberta.

    O lençol do erário brasileiro é enorme. O problema é que cada setor segura com unhas e dentes uma parte. Difícil pedir às categorias mais articuladas que se devolva qualquer coisa - congressistas, militares, funcionários públicos de alto escalão, executivos de montadoras, entre outros. Tirar benefício é muito mais difícil do que dar e isso é be a bá da gestão pública.

    A imagem serve para explicar a dificuldade que a equipe econômica tem em resolver os dilemas crônicos do Brasil. O novo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, tido como o homem certo na hora certa, anunciou o combate às exceções em seu ajuste fiscal.

    A ideia é interessante, embora ele não tenha dado pistas sobre o que fará no longo prazo. Uma racionalização do sistema tributário, que traga simplicidade ao ato de os pagar, já seria um incremento substancial. Há um custo oculto, difícil de mensurar, no esforço necessário de entender e acompanhar as constantes mudanças nas taxas do País.

    O novo ministro do Planejamento, no entanto, encontrou outro ponto frágil para retirar o tal lençol: a fórmula de reajuste do salário mínimo criada pelo PT, que garante ganho real por ter uma fórmula vinculada a inflação somada ao crescimento do PIB. Pisotear a amorfa classe trabalhadora é cruel e relativamente fácil. Como o salário mínimo é de um monte de gente, logo é de ninguém. Atinge aos que menos têm poder de lobby.

    A presidente Dilma Rousseff, que parece ter se dado conta do tamanho da borrada de seu primeiro mandato em termos de contas públicas, adotou uma atitude diferente de seu perfil. Resolveu deixar a correia de seus subalternos solta e deu nisso, estavam já salivando para morder os mais carentes. Dilma correu para desmentir Barbosa, embora esteja longe de posar de mãe dos pobres.

    Durante as férias de final de ano, aproveitou-se que o povo estava mais preocupado em preparar a ceia de Natal e o figurino para o Ano Novo do que em discutir política e tacou a tesoura nos benefícios dos trabalhadores. Em seu discurso de posse deu declarações dignas do período eleitoral, prometendo que jamais prejudicaria os representados pela letra T da sigla de seu partido. Mentiu.

    Nem a militância mais tosca caiu nessa. Tomara que seja o ato final da campanha dela, que deveria ter se encerrado à muito tempo. Talvez Dilma não tenha se dado conta, mas as declarações e promessas descumpridas foram em parte responsáveis por jogar no lixo a credibilidade de sua equipe econômica. Um fator que contribuiu para a situação atual, um início de 2015 com ares de guerra onde o Brasil está munido apenas de um cobertor cheio de remendos. Chega de eleições. É hora de governar.

    *****


    João Varella é editor do El Economista América e repórter da revista IstoÉ Dinheiro. Fundou a editora Lote 42 e o site Trilhos Urbanos. É autor de três livros, sendo o mais recente 42 Haicais e 7 Ilustrações. Escreve semanalmente neste espaço. O presente artigo não reflete necessariamente as opiniões do El Economista América.

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