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Charlie Hebdo e a liberdade que vem de Paris

João Varella - 17:50 - 12/01/2015
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    O ataque à redação do jornal satírico francês Charlie Hebdo, em Paris, joga uma nuvem negra nos assuntos da semana. É difícil racionar num momento de comoção diante de uma violência que parece passar longe do Brasil.

    Não que tenhamos uma situação tranquila em termos de segurança pública, muito pelo contrário. A motivação é estranha. Aqui nenhum editor de jornal deixa passar uma charge de Maomé. Buscar equivalente brasileiro só no museu da comédia gráfica.  É como se tivessem invadido o Casseta Popular e assassinado Helio de la Peña, Marcelo Madureira e Bussunda. Ou Ziraldo, Jaguar e Tarso de Castro d'O Pasquim.

    Os assassinatos merecem repúdio absoluto. Qualquer tergiversação é mau-caratismo.

    A mesma reação seria desejável nos abusos que as potências ocidentais, EUA em especial, praticam há anos nos países do Oriente Médio. Há provas cabais de violência desmedida do Exército americano, praticado por todos os graus hierárquicos, de soldados a drones.

    A palavra 'terrorismo' deve ser usado com extremo cuidado. Essa qualificação é a forma mais rápida e eficaz de desumanizar ou desautorizar um dos lados do conflito. Se for para usar esse termo, por favor incluir a base de Guantánamo. Faço minhas as palavras de Caetano Veloso: 'O fato dos americanos desrespeitarem os direitos humanos em solo cubano, é por demais forte, simbolicamente, para eu não me abalar'.

    A favor ou contra Guantánamo? Não sei, mas que bom ser possível abrir essa discussão. De forma extrema e longe do desejável, o caso fez brilhar a joia mais preciosa do Ocidente: a liberdade de expressão. Charlie Hebdo, que pratica um humor agressivo e antiquado, virou a bandeira ensanguentada desse valor. Passado o calor da comoção, já há quem critique e aponte alguns podres da história da publicação - que ótimo.

    Há limites para esse pilar democrático, mas essa cerca é mais irrelevante do que se imagina, pois os membros das sociedades livres são brindados com uma mesa farta de conteúdo. Coma só aquilo que quiser e saiba que você está livre para discutir com o chef. Agora, nada de explodir o cozinheiro com um lança-mísseis. Uma outra questão é a igualdade de direitos, ou seja, o acesso a  essa mesa metafórica, mas, apesar de ser outra nuance essencial da  democracia, reservaremos para um outro texto.

    No direito existe o conceito de in dubio pro reo (na dúvida, em favor do réu). Temos de ser cientes que in dubio pro liberdade de expressão também. 'Eu vivo sob a lei francesa, não sob a lei do Alcorão', dizia o cartunista Stéphane Charbonnier, diretor do Charlie Hebdo e uma das 12 vítimas.

    Charbonnier morreu em pé, como dizia desejar. Não se furtou de colocar a liberdade acima dos dogmas religiosos, tal qual se pressupõe que um estado laico seja. Se vivo estivesse, teria orgulho dos colegas sobreviventes que resolveram manter o semanário.

    Uma publicação como o Charlie Hebdo seria desejável no Brasil de hoje, mas não daria certo. Não lidamos bem com o contraditório, queremos evitar a fadiga de um debate que pode pôr em risco uma amizade.

    Sob a sombra do atentado, caberia pensar duas vezes atos absurdos como os dos manifestantes que resolveram partir para porrada quando a revista Veja informou que os nomes de Dilma Rousseff e Lula foram citados nos depoimentos da operação Lava Jato - um dado que parece um trocado perto das mazelas que vieram a ser revelados no decorrer da operação.

    É compreensível que tenhamos uma situação pior que a da França no tocante a preservação das liberdades públicas. O pessoal que fala com biquinho modernizou a tal da democracia com a Revolução Francesa há mais de 200 anos. Em passagem pelo Brasil, George Wolinski, mais afamado entre as vítimas, disse desfrutar de tanta liberdade em seu país que fazia tudo ficar sem graça, mais difícil de provocar, de transgredir. O Brasil recém vai completar 30 anos de redemocratização na próxima quinta-feira (15).

    Aos trancos e barrancos, temos de conviver com uma intelectualidade que se ofende quando um humorista como Rafinha Bastos ou Danilo Gentili faz uma piada mais picante envolvendo um determinado segmento social. Alguém ou alguns inventaram uma regra: só pode fazer graça do opressor, nunca do suposto oprimido. Para quem gosta da anarquia do humor, só resta dar risada com essa norma expedida pelo cartório da boa vontade, cujos tabeliães também acreditam no sexo só por amor.

    Criou-se uma redoma de energia politicamente correta em torno de mulheres, negros, nordestinos, judeus, pobres. E há de se moderar o tom contra os personagens permitidos (político, advogado, etc.). Levam a sério o que é para ser visto como engraçado. Há piadas ruins, claro, mas aí é uma discussão em torno das habilidades do comediante, não de ideologia.

    Não se dão conta que, em essência, uma gag é alguém caindo numa casca de banana. Sempre tem alguém machucado. O negócio é levantar, assoprar o machucado e dar risada junto. Talvez absorver como uma crítica o que está gerando as risadas. Humor do bem não funciona por motivo de falta de graça.

    *****


    João Varella é editor do El Economista América e repórter da revista IstoÉ Dinheiro. Fundou a editora Lote 42 e o site Trilhos Urbanos. É autor de três livros, sendo o mais recente 42 Haicais e 7 Ilustrações.  Escreve semanalmente neste espaço. O presente artigo não reflete necessariamente as opiniões do El Economista América.

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