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Aberta a temporada de cantadas grosseiras

Larissa Veloso - 10:47 - 6/03/2014
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    Ah, o carnaval brasileiro... Uma festa de plumas, paetês e sambas-enredo. Aquela época do ano em que seu chefe sai de peruca verde na rua, foliões cantam marchinhas em todas as esquinas, as calçadas se inundam de confetes e os homens acham que podem ir passando a mão na primeira mulher que veem pela frente.

    Nem tudo é cor-de-rosa no carnaval. Na verdade, nem bem havia terminado a sexta-feira e eu tive a sensação de que fora aberta a temporada de caça às donzelas.

    Não me entenda mal. Gosto de carnaval. Adoro curtir blocos e marchinhas. E é justamente por isso que o clima forçado de "azaração" me incomoda tanto. Dependendo do tipo de festa que você vai, é impossível passar o dia (ou a noite) sem fugir a todo momento de caras que tentam te puxar à força, te beijar sem que você queira, ou simplesmente lançam insistentemente o papinho meloso do "posso te conhecer melhor?".

    Mas se engana quem pensa que acabado o carnaval as mulheres ficam livres das cantadas e puxões. Muito pelo contrário. Ouvir grosserias e insinuações sexuais enquanto anda nas ruas é uma rotina para as brasileiras. De acordo com uma pesquisa realizada pelo site Think Olga, 98% das mulheres já ouviram cantadas indiscretas nas ruas e 77% já foram assediadas na balada. E as coisas não param por aí. De acordo com a mesma pesquisa, mais de 80% das mulheres já foram agarradas a força ou tiveram seus corpos tocados sem autorização enquanto estavam em uma boate ou festa.

    Parece reinar, entre os homens, o pensamento de que as mulheres gostam desse tipo de atitude e devem se sentir valorizadas ou até mesmo agradecidas quando ouvem um "gostosa" de um completo estranho na rua. Mas o resultado não é bem esse. A consequência é medo. Aceitem essa afirmação, vinda de alguém que, sempre que pode, escolhe sentar ao lado de outra mulher no ônibus. Mas se quiserem dados, a pesquisa do Think Olga também abordou esse ponto. De acordo com a publicação, 81% das pessoas do sexo feminino já deixaram de fazer alguma coisa (como ir a algum lugar, passar em frente a uma obra ou sair a pé) com medo de assédios. E 90% das entrevistadas já trocaram de roupa, também por receio do que iriam ouvir.

    O pior é que não há nada a fazer. Com o tempo, acabei descobrindo que a melhor reação é nenhuma reação. Quando os caras te cantam na rua, eles esperam arduamente alguma resposta, nem que seja um belo dedo do meio. É praticamente uma festa, principalmente se eles estão em grupo. "Olha, ela ficou irritadinha!" ou "Tá metida, hein?". Sim, essas eu também já ouvi. Isso quando o cara não se torna agressivo, frente a uma reclamação maior. Geralmente a minha reação e creio, a da maioria das mulheres, é abaixar a cabeça e simplesmente fingir que não ouviu.

    Mas de uns tempos para cá as coisas têm começado a mudar. A pesquisa realizada pelo Olga, com mais de 7.700 mulheres, é um primeiro passo para expor o problema. A partir daí o site lançou a campanha "Chega de Fiu Fiu", contra o assédio sexual nas ruas, nos locais de lazer e no trabalho. Com o pontapé inicial dado pelos números, reportagens foram feitas e mais mulheres começaram a se abrir e contar seus casos, alguns deles seríssimos, com consequências para uma vida inteira. Mesmo assim, ainda falta muito para que as mulheres, principalmente as adolescentes, possam caminhar sem medo nas ruas brasileiras. E nesse dia, só então eu poderei curtir o meu carnaval em paz.

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    Larissa Veloso é jornalista freelancer e editora adjunta do portal elEconomistaAmerica Brasil. Escreve semanalmente neste espaço. Este artigo não reflete necessariamente as opiniões do El Economista América.


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