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A razão de Sheherazade

João Varella - 14:08 - 10/02/2014
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    A apresentadora do SBT Rachel Sheherazade

    Homem-Aranha faz delivery de bandidos à polícia com eles amarrados em poste. Para isso, usa sua teia. O Batman, de editora concorrente, usa uma corda. A depender do roteirista de turno contando a história, a sociedade vê aos heróis como criminosos. Alan Moore teve a sensacional sacada de colocar lentes realistas nessa lógica na série Watchmen, publicada nos anos 1980.

    A vida imitou uma vez mais a arte. O País acompanha em choque o desenvolvimento da história de um adolescente preso a um poste com uma trava de bicicleta no pescoço. Ele é suspeito de ter cometido um furto.

    Quem fez isso? Seria um pássaro? Um avião? Não. Nada que lembre a cultura pop americana. Há uma diferença severa entre os "Vingadores" do Rio de Janeiro e dos quadrinhos: o rapaz estava nu. Ele foi humilhado em praça pública no mais literal dos sentidos desta sentença.

    Indícios apontam a atuação de um grupo querendo fazer "justiça com as próprias mãos" no Rio. Desnecessário conhecer clássicos dos quadrinhos, literatura ou sociologia para saber no que isso vai dar se nada for feito. Basta ter um pouco de bom senso.

    Um pouco da história recente carioca deveria servir de alerta. O Rio já teve algumas de suas regiões controladas por grupos de pistoleiros que se apresentavam como Liga da Justiça. Nos gibis, o grupo é uma seleção de heróis da DC Comics, como Vingadores é da Marvel. No Rio, as milícias que controlam 45% das favelas são um sintoma eloquente da fraqueza do Estado. Crime organizado só cresce e se fortalece na falta de aplicação das leis - esse axioma serve para Rio, São Paulo, Curitiba, Guaíba, Buenos Aires, Paris (Texas), Paris (França) e onde mais você quiser.

    Em meio ao estarrecimento do País com a crueldade do mais recente show de violência com a marca Rio de Janeiro, surgiu a opinião de Rachel Sheherazade. Uma tempestade num copo d?água que soterrou inclusive a parte em que ela tem razão. Malicioso, Mauricio Stycer, colunista do UOL, fez um post em seu blog como se o comentário fosse institucional do SBT. Seria dizer que o UOL apoia os seriados bíblicos da Record, o que não é verdade, já que assume-se que Stycer é o porta-voz do veículo.

    Para se ter uma ideia do nível do debate, Stycer alegou em seu perfil no Twitter que a jornalista deu RT em comentários de pessoas que desejaram a morte do colaborador do UOL. Sheherazade disse não o conhecer.

    Não há inocentes nessa guerra ao redor de Sheherazade. Todos disputam audiência, um dos mais valiosos bens modernos. Dê uma olhada na quantidade de comentários dos posts de Stycer quando ele escreve sobre Sheherazade. Fácil inferir que as visualizações de página do comentarista foram às alturas.

    Entram nessa categoria de vale-tudo por Ibope os usuários de redes sociais. Entraram na lógica do linchamento. Em bando, se destaca (leia: tem audiência) quem bate mais forte.

    Antes do episódio, já teve gente desejando que ela fosse estuprada. O autor do desejo de estupro é Paulo Ghiraldelli, uma besta que se traveste de cidadão de bem com verniz intelectualizado. Se chafurdarmos no pântano dos comentários de internet encontraremos coisa pior, muitíssimo pior.

    Tenho mais dó do que raiva de Sheherazade, embora não tenha o desejo de adotá-la. Dê um passo atrás. Qual é a origem do fenômeno que coloca uma pessoa de curto repertório intelectual na posição de âncora? Uma resposta de muitas: o enfraquecimento da mídia.

    Sheherazade lembra o fenômeno das revistas neocon americanas, que passaram a acentuar a radicalização de seu conteúdo na era pré-internet. No Brasil, esse estilo é representado pela revista Veja e, do lado oposto, Carta Capital. É uma tática para se aferrar ao nicho de público do veículo. Depois disso, perdem credibilidade, seu bem mais essencial. Conheço muita gente que não crê em nada dessas revistas, nem na data da capa. Não à toa, as semanais americanas sofrem uma crise braba. A lógica neocon chegou à TV pela Fox News, cujos comentaristas volta e meia dão uma "sheherazadiada".

    Essa lógica da gritaria encaixa perfeitamente com a web. Para chamar a atenção em meio a avalanche de pitacos e links postados diariamente, é desejável ter opiniões radicais. De preferência, curta, direta. Preto ou branco. Sheherazade é idiota ou brilhante. Ponderações equilibradas perdem vez.

    A apresentadora chegou ao principal jornal do SBT graças a esse perverso sistema. Com sua cara braba (que no Brasil é sinônimo de seriedade), ganhou fama ao criticar o carnaval. Nesse caso, foi um bom texto, com uma abordagem criativa. Era diferente do que se vê e ouve por aí sobre o tema.

    O patrão Silvio Santos está fazendo alguns experimentos com redes sociais há um tempo (escrevi sobre isso na Dinheiro). Sem saber o que fazer direito com a tecnologia - SS faz parte de outra geração, não esqueça - promoveu a jornalista que parece ter se dado bem com a rede mundial de computadores.

    É tradição na TV brasileira que os jornais sejam compostos de mulher bonita e homem de credibilidade, em geral mais velho. Não parece mera coincidência que Ana Paula Padrão, Fátima Bernardes, Leilane Neubarth, Ana Paula Araújo, entre tantas outras, perderam o posto na bancada de apresentação da TV aberta para mulheres mais jovens. A coisa é tão caricata que o JR News da Record News estreou com Heródoto Barbeiro ao lado de uma ex-participante de testes para ser a loira do grupo de axé É o Tchan.

    Sheherazade parece querer quebrar essa lógica. Quer garantir seu lugar de outro jeito. Acho um desejo digno. De tempos em tempos, os comentários dela viram uma atração à parte na web. Isso dá audiência, ora pois. O problema: Sheherazade é curta demais. Suas opiniões tem a profundidade de um pires. Não raro se aferra à Bíblia para se posicionar no debate público. Nem a Record, controlada pela Igreja Universal, faz isso.

    Repare no esclarecimento de Sheherazade no dia seguinte ao comentário polêmico do adolescente torturado. É um macarrão de frases com uma coerência fraquíssima. Cita um "direito dos cidadãos de prender um meliante". Hein? Que parte da lei fala em prender um adolescente com uma trava de bicicleta? Meu trecho favorito: "Estou todo dia aqui batendo na violência". Dá para redimir uma pessoa dessas? Na boca de um poeta, a frase é ótima. Na mente sem imaginação de Sheherazade, é um sinal de dificuldade para lidar com a posição em que está.

    Reveja o fatídico vídeo que desencadeou a discussão. Ela chama o adolescente de "marginalzinho", uma estigmatização repudiada por órgãos de defesa das crianças e dos adolescentes. Uma forma inconsequente de usar o poder de um meio de comunicação de massa. Isso que ela alega ter sete anos de atuação em uma vara da infância e da juventude. No final, Sheherazade repete o chavão "adote um bandido", frase de efeito batidíssima, eivada de pobreza e burrice.

    No meio de tanto lixo, há uma bela flor. Ela trouxe à tona a grande figura. Justiceiros são sintoma de algo mais grave. Citou estatísticas interessantíssimas, mas nem precisava. O povo brasileiro sabe o que é conviver com a situação de insegurança. Com uma passividade acachapante, aceitamos que não dá para sair de casa de noite sozinho. Ou que há zonas das cidades que não dá para transitar em horário algum. Isso é inaceitável. Uma vergonha, como diria Boris Casoy, ex-âncora do SBT. Sheherazade está coberta de razão nesse ponto.

    Até então, no meio do caldo de interpretações sobre o caso, pouca gente (eu não vi ninguém) pensou no macro, que é sempre importante. Jornalismo de segurança pública que só vê o crime contribui pouco para a situação. É um showrnalismo capaz até de incentivar casos similares. Sim, é preciso parar para refletir diante de um caso desses. Seria saudável que os canais de televisão promovessem esse tipo de debate da maneira mais qualificada possível. De forma plural, com pontos de vista diversificados, de todas as gamas de cores.

    É difícil preencher um minuto de comentário diário de TV aberta. Tarefa árdua, comparável a da Sheherazade de As Mil e Uma Noites. Parece que a âncora nem sempre tem condições de cumprir essa função. Minha sugestão a Silvio Santos: quando Sheherazade patinar, coloque uma cena de Chaves para completar a grade. Ou algum desenho animado de super-herói.

    *****

    João Varella é repórter da revista IstoÉ Dinheiro. Fundou a editora Lote 42 e o site Trilhos Urbanos. Escreve semanalmente neste espaço. O presente artigo não reflete necessariamente as opiniões do El Economista América.


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